domingo, novembro 18, 2007

O que é isso de ser DINKY

São casais, sem serem casados. Não têm filhos nem sabem se querem ter. Independentes e individualistas, gostam de viajar e dedicam mais tempo aos amigos do que à família.
Em 2012 podem chegar a um quarto da população portuguesa.

Mafalda Bettencourt, 29 anos, já anda a contar os dias que faltam para a viagem quem vai fazer em Janeiro com os amigos. “Quinze dias no Rio de Janeiro, muito sol e muita praia.” Em Agosto, foi a vez de Rodrigo Pereira, 33 anos, o namorado com quem vive há um ano e meio, ir de férias, também com amigos, para a Nicarágua. “Gostamos muito um do outro mas somos independentes, não andamos sempre a reboque”, esclarece Mafalda. “Gostamos de jantar fora, ir ao cinema, beber um copo ao final da tarde e viajar juntos, mas também fazemos muitos programas em separado – eu com as minhas amigas, ele com os amigos dele.” Um exemplo; “Eu adoro ir para o ginásio, o Rodrigo vai para a praia fazer surf.” Ele acrescenta; “Com o nosso estilo de vida descontraído, independente e espontâneo, somos muitas vezes os heróis dos nossos amigos casados e com filhos.”

Mafalda e Rodrigo são o exemplo de uma tribo urbana: os dinkys. Uma expressão que vem do Inglês: DINKY quer dizer dual income no kids yet. São casais entre os 25 e 35 anos que vivem juntos, trabalham, são bem remunerados, não têm filhos e não querem ter, pelo menos para já.

Um estudo realizado este Verão pela agência de publicidade McCann-Erickson afirma que já há 980 mil casais portugueses com este perfil – quase 2 milhões de pessoas. Em 2010 poderão representar 25% da sociedade portuguesa.
Pedro Pessanha, autor do trabalho da McCann-Erickson, afirma que hoje é “possível encontrar dinkies em várias camadas da sociedade e várias profissões, embora sejam mais próprios nas grandes cidades”. Define-os assim: “Ganham bem, dão muita importância à carreira, gostam de comprar novas tecnologias, ir a bons restaurantes e ao ginásio, e ligam muito ao bem-estar físico e mental. Regra geral, distinguem-se por serem mais individualistas, independentes e focados no “eu” e no prazer.”


Daí não terem filhos. “Porque são sinónimo de perda de tempo para viajar, jantar fora, ir ao cinema, estar com os amigos…E representam um estilo de vida mais estável, que contraria o espírito dos dinkies.” Eles não querem sentir que assentaram, querem “continuar a idade da juventude”, diz o autor do estudo. “Por isso, a maioria prefere viver junto com alguém a casar e morar numa casa arrendada. É a filosofia do menor vínculo possível. A qualquer momento pode-se mudar de casa, de relação, de vida”, explica Pedro Pessanha.

Mário Silva, 32 anos, encaixa neste perfil. A viver há dois anos com a namorada, Sílvia Gonzalez, professora de espanhol, optou por morar numa casa alugada; “Não sei se vou querer viver sempre no mesmo espaço, na mesma cidade, no mesmo país. Assim tenho mais mobilidade.” A mobilidade, a aldeia global, o aparecimento da Internet e das low cost são aspectos que a socióloga Sofia Carmo aponta para explicar o aparecimento desta tribo urbana. “Nos Estados Unidos e em Inglaterra já existem dinkies há muito tempo. Em Portugal é um fenómeno mais recente”. De qualquer forma, “com a facilidade que as pessoas hoje têm de viajar, trocar correspondências e viver várias vidas, é complicado pedir-lhes para se vincularem muito cedo. O desejo de compromisso aparece cada vez mais tarde, a eterna juventude é cada vez mais incentivada: é sinónimo de beleza, de sucesso, de poder”. Pedro Pessanha conclui: “Antes havia os eternos Peter Pans. Agora há os dinkies.”

Mas não se pense que é uma condição para sempre. Embora 37% se veja com o mesmo estilo de vida em 2012, a maioria dos entrevistados pela McCann imagina-se com filhos próximos dos cinco anos e 41% põe mesmo a hipótese de casar.

Mário não entra neste último dado estatístico, porque o casamento nunca este nos seus planos – e mesmo filhos só devem aparecer depois de encerrado “o ciclo das noitadas, das viagens e das festas com os amigos”. “Até aos 35 anos, as pessoas querem descobrir, viver, ter experiências. Isso faz com que o individualismo perdure. Depois encerra-se um ciclo. Nessa altura creio que vou estar mais preparado para viver em função do “nós”, em vez da função do “eu”.

João Vale e Filipa Silva, ambos de 31 anos, não querem esperar muito mais. Depois de dois anos de vida em comum, o casal, que trabalha em marketing, resolveu pedir uma licença e partir para uma volta ao mundo que durou oito meses. “Uma opção de vida completamente dinky”, ironizam. Mas quando voltaram, em Dezembro passado, decidiram casar-se. “Para nós, a viagem funcionou como um fechar de um capítulo.”

PS – Artigo inserido na Revista Sábado número 184 (8 a 14 de Novembro 07) e é assinado por Catarina Serra Lopes.

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