quarta-feira, fevereiro 27, 2008

PRESENTE E FUTURO – REALIDADE OU FICÇÃO?

Estoril, 7:30 da manhã, 3ª Feira, 26 de Fevereiro.

Carlos acorda com a luz emitida pela pequena máscara de dormir que lhe venda os olhos. Embora não sendo grande adepto deste tipo de tecnologia – o despertador do telemóvel é a sua opção favorita –, Carlos reconhece que a utilização da máscara lhe permite não incomodar Paula, a esposa, a qual necessita de dormir um pouco mais, já que esteve de serviço nas Urgências do Hospital até cerca das 5 horas da madrugada.

Evitando efectuar ruídos desnecessários, encaminha-se, como habitualmente, para a casa de banho para fazer a barba e tomar o duche.

Veste-se, entretanto, e dirige-se para a cozinha, onde a cafeteira eléctrica – comandada pela unidade central de processamento existente no lar – acaba de preparar o café forte que Carlos não consegue dispensar todas as manhãs.

De relance, repara que o écran LCD existente na porta do frigorífico apresenta um tom vermelho de fundo alertando, assim, para a necessidade de adquirir alguns bens em falta. Não se preocupa. Paula, mais tarde, verificará quais os produtos a adquirir, e o computador, com base na nova versão do software Microsoft Shop, efectuará a encomenda dos mesmos na loja virtual que, naquele dia, apresente a melhor relação custo/benefício para o conjunto de bens a adquirir. Ou, por outro lado, talvez Paula prefira deslocar-se a um dos vários Centros Comerciais existentes e efectuar pessoalmente as compras.

8:15 da manhã, Carlos pega na carteira, nos óculos, no telemóvel e no seu IPUC (Integrated Personal Utility Card) e encaminha-se para o automóvel.

À sua aproximação, o MBMW (marca resultante da recente fusão entre a Mercedes Benz e a BMW) C320H (hidrogénio) destranca a porta, liga automaticamente o motor e procede ao ajuste dos vários elementos (banco, volante, temperatura, espelhos retrovisores, etc) de acordo com as preferências de Carlos. Apesar dos vários milhares de Euros que o carro lhe tinha custado – malvados impostos!!! –, Carlos não podia deixar de concordar que a sua compra tinha valido a pena.

Sentado ao volante, Carlos insere o seu IPUC no computador de bordo. A voz de Marta, a navegadora virtual, relembra-o que dispõe de todos os pontos da sua carta de condução, ao mesmo tempo que sintoniza a sua frequência DAB (Digital Audio Broadcast) favorita e acerta o volume de acordo com os parâmetros resultantes da análise histórica comportamental das preferências de Carlos.

Contudo, Carlos tem outras opções: sintonizar uma outra rádio (com transmissão DAB ou recepção web 3.0 via telemóvel); aceder a podcasts de programas específicos (Economia, Trânsito, Desporto, etc) já emitidos anteriormente e que o sistema de computação integrado do veículo armazenou no pequeno disco de 10 Terabytes; seleccionar uma das 50.000 músicas, em formato MP5, disponíveis no referido disco; etc, etc, etc.

Carlos opta, no entanto, por ouvir a sua frequência DAB favorita.

8:25 da manhã, Carlos é interrompido pelo som da buzina do veículo que se desloca à sua esquerda. O outro condutor faz-lhe sinais apontando para o pára-brisas do MBMW e para o corredor da Via Verde no qual Carlos circula. Entende. O outro condutor chama-lhe a atenção para o facto de não possuir no pára-brisas o Identificador que o autoriza a passar na Via Verde.

Carlos faz um gesto de que compreendeu e sorri. Como é possível ainda haver quem prefira sistemas múltiplos de identificação ou autorização em vez de, tal como ele, optar pelo conjunto de vantagens que o cartão IPUC incorpora???

8:40 da manhã, 15 minutos para andar 3 Kms. O trânsito está um caos.

Decide recorrer ao sistema de navegação incorporado no veículo na esperança de encontrar uma alternativa à auto-estrada onde circula. Nada a fazer, a confusão de trânsito – que observa no live-streaming de vídeo do GPS – está generalizada às outras vias. Há que continuar, avançando à média de 12 Kms/hora, numa das 5 faixas de rodagem que lhe permitirão chegar ao seu destino.

A observação de outros veículos permite a Carlos – para além de se distrair – verificar o modo como os ocupantes dos mesmos lidam com as complicações do trânsito: à sua direita, o casal que viaja num Todo o Terreno conversa animadamente; à sua esquerda, e um pouco mais atrás, o jovem condutor de uma carrinha de entregas rápidas fuma desalmadamente enquanto da sua viatura irrompe o som frenético de uma qualquer banda rock dos anos 90, do século passado; o ecrã do computador de bordo, recorrendo à câmara de filmar instalada na retaguarda do veículo, permite-lhe observar, atrás de si, o condutor de um automóvel que lê, em papel electrónico, um jornal diário que terá obtido efectuando o download do mesmo através do telemóvel.

Sente o carro travar. Apesar da utilidade do FVDC (Front Vehicle Distance Control), o qual actua através de um sensor que analisa constantemente a distância ao veículo da frente accionando os travões sempre que essa distância, em função da velocidade de deslocação, se torna perigosa para a segurança do veículo e dos seu ocupantes, Carlos continua a não gostar muito das surpresas provocadas pelo equipamento em causa.

9:00 da manhã, o sinal horário da rádio lembra-o que tem uma reunião às 9:30 na agência de publicidade onde desempenha as funções de Director de Contas. Trata-se da 1ª reunião com um novo cliente onde irão estar presentes – para além de vários responsáveis pelo Marketing do cliente – o Director Criativo, o Director de Media e o Director de Estratégia Multimedia da agência. É preciso mostrar o serviço completo da agência ao cliente.

Recordava-se da conversa que tinha tido no dia anterior com os outros colegas da agência a propósito do briefing preliminar que o cliente lhes tinha passado na videoconferência.

As duas grandes preocupações do novo cliente (resultante da fusão entre dois grandes grupos bancários) eram, por um lado, a deduplicação das bases de dados existentes e, por outro lado, a sua actualização. Se a primeira situação seria resolvida pelas equipas informáticas do cliente, já para a segunda (actualização das bases de dados) o cliente esperava da agência soluções que o auxiliassem.

Alexandre, o Director de Estratégia Multimedia, tinha sugerido uma abordagem à resolução do problema que levaria a que fossem os próprios clientes do banco a actualizarem as bases de dados. A ideia dele era lançar uma campanha multimedia interactiva em que se convidariam os clientes a acederem ao site do banco e a procederem eles próprios ao preenchimento/actualização das respectivas fichas de dados, premiando-os, para o efeito, com um conjunto de ofertas diversificadas.

João, o Director Criativo, tinha colocado algumas reticências a esta abordagem. Em que tipo de ofertas estava Alexandre a pensar e quem suportaria o seu custo?

A resposta de Alexandre não se fez esperar. As ofertas seriam do tipo desconto na aquisição de determinados bens e/ou serviços. Por exemplo, ao actualizar a sua ficha seria perguntado ao cliente qual a marca do seu automóvel. A resposta seria premiada com um desconto de 20% na próxima mudança de pneus que o cliente efectuasse no seu veículo.

O custo, esse, seria suportado por uma marca de pneus que asseguraria, em contrapartida, um volume de vendas adicional devido à promoção que efectuaria em conjunto com o banco.

Carlos interrompe os seus pensamentos para fixar o olhar num outdoor com formato de 16 metros por 9, onde decorre a campanha de Primavera/Verão de uma conhecida marca de lingerie. É, de facto, impossível não reparar.

9:10, a este ritmo não chegará antes das 9:45 horas. Decide telefonar para a agência e informar do seu atraso. “Ricardo”, exclama. O telemóvel efectua a chamada.

Após o 3º toque ouve a voz de Ricardo, o Director de Media, do outro lado. Não há problema, diz-lhe Ricardo, o cliente vem do Porto e, entretanto, enviou um SMS alterando a reunião para as 11 horas. Ao que parece, as obras que continuam a decorrer no aeroporto da Portela, para adaptação aos novos Boeing 947 de descolagem vertical, estão a provocar atrasos sucessivos nos diversos voos.

Até calha bem, confessa Ricardo, vai aproveitar para analisar no MultiReport (o software de análise de audiências multimeios) os últimos dados recolhidos do painel de MultiAudimetria.

Carlos relaxa e decide concentrar-se na emissão especial que a rádio tem estado a efectuar toda a manhã: trata-se da antevisão do jogo Sporting / Manchester United, a contar para os quartos de final da Liga dos Campeões, que se realizará nessa noite, e que constituirá, acredita, mais um passo para a presença da equipa portuguesa, pelo 2º ano consecutivo, na Final da referida competição.


PROPOSTA DE REFLEXÃO:

Muito do que aqui foi referido é, já hoje, uma realidade. Muito do que aqui foi referido será, provavelmente, uma realidade num futuro próximo.

Parte do que aqui foi referido é e continuará a ser, provavelmente, ficção nesse futuro.

Tom Peters, no início da sua obra, “Re-imagine!”, cita uma frase de Anthony Muh, responsável de investimentos na Ásia, do Citigroup, que me parece extremamente adequada a este contexto: “A incerteza é a única certeza”.




Hernâni Gomes (Director Geral Comercial da Cofina)
in Congresso INP, 26 de Feveiro de 2008.

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